Um ano de uma Potência independente e soberana
  • 20 ago 2019

Um ano de uma Potência independente e soberana

Em entrevista especial, o Sereníssimo Grão-Mestre do GOSP, Irmão Kamel Aref Saab, comenta a vitória que culminou com a desfederalização do Grande Oriente de São Paulo e destaca o crescimento e união dos Irmãos na concretização da independência

As lembranças daquele histórico 17 de setembro de 2018 ecoam fortemente na memória. Na sede provisória do Grande Oriente de São Paulo (GOSP), rodeado de diplomas e homenagens que recebe por onde passa, o Sereníssimo Grão-Mestre, Irmão Kamel Aref Saab, se lembra com orgulho dos desafios superados que culminaram na desfederalização do GOSP, no dia seguinte da independência. Aos 65 anos de idade, sendo mais de duas décadas de vida dedicadas à Maçonaria, o Sereníssimo Grão-Mestre relata na entrevista a seguir suas recordações do dia da desassociação e as estratégias adotadas para lidar com as turbulências. Ele também expõe todos os desafios já vencidos e as etapas que precisam ser superadas para criar e estimular uma Maçonaria sem fronteiras ou muros em todo o estado e no Brasil.

 

No dia 17 de setembro deste ano, é completado um ano da desfederalização. O que levou o GOSP a fazer esse movimento?

Estávamos unidos a uma federação maçônica que destoava completamente dos valores inegociáveis cultivados pela Maçonaria, como fraternidade, respeito, irmandade e, sobretudo, liberdade. Todos viram — e os fatos ocorridos antes e após a desfederalização mostraram bem essa realidade — que estávamos sendo tiranizados e tendo nossa autonomia administrativa usurpada. Foi em defesa de nosso quase centenário Oriente, do nosso patrimônio material e também imaterial, que é símbolo e herança do suor dos Obreiros do passado e do presente do GOSP, que seguimos, soberanos, pela via da desassociação. Foram muitas as atitudes da entidade nacional, tantas intervenções, suspensões sem razão, que nos fizeram dar um basta definitivo a essas práticas que não são devidas do legítimo Maçom. A história recente do GOSP e a história de São Paulo mostram que paulista nenhum aceita se submeter a qualquer tipo de tirania e opressão.

Quais recordações o senhor guarda do histórico dia da desfederalização?

Após ler o resultado das urnas naquele dia de mais de quatro horas ininterruptas discutindo nosso destino com as principais lideranças estaduais e das Lojas, ao declarar a desfederalização do GOSP, ouvi um grito de liberdade como nunca ouvira em toda a minha vida e que até hoje ecoa com alegria na minha mente e coração. Meu instinto maçônico já podia sentir que o sim contra a opressão sairia vitorioso e, ao final daquele dia, fiquei orgulhoso com a aceitação da maioria dos Irmãos presentes em voltar a respirar o ar da liberdade. Retomando as origens da época de nossa fundação, em 1921, hoje o GOSP é uma instituição livre e soberana, e segue com o objetivo de fortalecer suas Lojas e Obreiros. Minha primeira ação, aliás, foi revogar o ato que proibia a intervisitação.

 

Como foi liderar o GOSP em meio à turbulência?

Com serenidade e apoio enorme dos Irmãos e de autoridades e com a profunda convicção de que a decisão que tomamos foi, sob o ponto de vista democrático e maçônico, a melhor possível. Nelson Mandela, esse líder sul-africano extraordinário e de coração enorme que tivemos o grande prazer de ter entre nós e aprender com suas lições, disse, quando se tornou presidente pela primeira vez da África do Sul: “Nunca, nunca, nunca mais deixaremos esta bela terra voltar a experimentar a opressão de uns e outros. Vamos deixar a liberdade reinar”. Eu dizia para mim mesmo, em meio àquele processo turbulento, que nunca mais o GOSP voltaria a experimentar qualquer sinal de humilhação e opressão em suas fileiras. Fui com esse sentimento no coração e, no fim, o bem venceu o mal.

 

O senhor convocou a Assembleia Extraordinária para analisar o decreto de desfederalização na Câmara Municipal de São Paulo. Por que lá?

Para os Irmãos terem ideia, 15 dos meus Grandes Secretários Estaduais sofreram perseguições, além de Irmãos e Lojas que vinham sendo assediados. Era absurda aquela situação e não podíamos mais protelar a decisão de reaver nossa soberania. No dia 17 de agosto, fui homenageado pela Câmara com o título de cidadão paulistano e fiquei muito honrado e emocionado porque tenho dedicado mais de duas décadas da minha vida, e me encaminho para os 66 anos de idade, para o desenvolvimento pleno da Maçonaria de São Paulo. Então aproveitei para falar ali mesmo, diante dos Irmãos presentes, na casa legislativa da cidade de São Paulo, como representante do povo gospiano e ecoando a cobrança de Lojas e Irmãos, sobre o decreto que propunha nossa independência. A partir daí, as perseguições aumentaram de foco — quiseram intervir no GOSP, um absurdo! —, mas nos mantivemos altivos, serenos e seguros acerca da legalidade do nosso decreto.

 

O que não mudou no GOSP após a desfederalização?

Nossa regularização. Somos regulares por origem. Temos uma história e tradição que nem o tempo, nem ninguém apaga! O GOSP tem 98 anos de existência e segue rumo ao seu centenário. Pertencíamos a uma associação em que éramos federados e resolvemos nos desfederalizar como já havíamos feito no passado. Nada muda o resto de nossa história dentro da Maçonaria do Brasil. Regularidade e reconhecimento não devem ser confundidos. O reconhecimento é um ato administrativo, político e de relações exteriores. Temos trabalhado em discussões, algumas iniciadas e outras já em andamento, nas relações institucionais com outras Grandes Lojas do mundo. São processos que levam um tempo maior para se concretizar, e a costura desse relacionamento exige experiência diplomática e diálogo. Estamos caminhando sem pressa com essa questão. Mas, ressalto, somos regulares por origem e isso ninguém, nem o tempo, apaga.

 

Todos os desafios já foram vencidos de um ano para cá?

Neste primeiro ano, muita coisa já foi feita e ainda há trabalho para fazer. Volto a citar Mandela: após escalar uma grande montanha, descobre-se que existem muitas outras montanhas para escalar. Muitas de nossas montanhas já foram escaladas e em outras já estamos a caminho do topo. A principal é o nosso novo Palácio Maçônico, que será o mais moderno de toda a Maçonaria da América Latina, cujas obras seguem firmes e fortes. Administrativamente, estamos bastante organizados, mesmo não tendo um tempo muito grande para arrumar a casa: nossa Constituição, Cartas Constitutivas, Regulamento Geral, por exemplo, já foram aprovados pela PAEL, e as Cartas, entregues às Lojas. Todas as Grandes Secretarias, Tribunais e Lojas têm trabalhado incansavelmente para promover nosso trabalho e legado e, como Grão-Mestre, tenho colocado o pé na estrada e visitado dezenas de Lojas para conversar com os Irmãos e compartilhar do entusiasmo que é fazer parte da construção dessa Maçonaria que não vê muros.